A estranha teoria do homicÃdio sem morte 0
Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mÃnimo racista.  A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas “interdição†de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.
Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brazil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a “gente†e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao perÃodo mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difÃcil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de “pessoalizaçãoâ€, até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade.
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o “ser ainda em construçãoâ€Â  poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a “coisa†venha a ser assassinada nesse perÃodo, o processo não envolverá morte. Não é possÃvel se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação à s crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais).  Essa equação racista só se aplicaria à quelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indÃgenas. Racismo revestido com um verniz de correção polÃtica e tolerância cultural.
Tristemente, o maior defensor desta teoria é um lÃder católico, um missionário. Segundo ele “O infanticÃdio,  para nós, é crime se houver morte. O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos Ãndios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano”, afirma. [i]
Uma antropóloga da UNB, concorda. “Uma criança indÃgena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de ‘pessoa’. Portanto, os rarÃssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. InfanticÃdio, então, nunca”. [ii]
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticÃdio nas comunidades indÃgenas brasileiras [iii]. Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indÃgenas[iv], escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de “interditar†crianças ainda não plenamente socializadas.[v]
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indÃgenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indÃgenas e ONG’s indigenistas.[vi]
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indÃgena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:
“Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos. Como é que eu poderia deixar matar?â€Â [vii]
Para esses indÃgenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.
Márcia Suzuki
Presidente do Conselho
ATINI – VOZ PELA VIDA
é uma organização social, sem fins lucrativos,  formada por Ãndios e não-Ãndios, que atua na defesa dos direitos das crianças indÃgenas em situação de risco e na busca de um modelo indigenista mais humano.
SCRN 714/715
Bloco F Loja 18
70 761-660 Â BrasÃlia – DF
Telefones: (61) 8116 1595 Â
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